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Autores
Orientador(es)
Resumo(s)
Introdução
A Farmacovigilância assume cada vez um papel mais importante para a recolha de informação sobre o perfil de segurança dos medicamentos, a partir do primeiro momento em que estes são administrados em humanos. Tendo em conta as limitações na recolha desta informação aquando a fase de estudos clínicos, é necessário monitorizar a segurança dos medicamentos durante o seu uso no mundo real, permitindo uma avaliação contínua da relação benefício-risco dos medicamentos comercializados. Para isto, são implementadas várias metodologias por parte dos Sistemas de Farmacovigilância, sendo que uma das mais utilizadas é a notificação espontânea, através da qual qualquer profissional de saúde ou consumidor pode notificar quaisquer reações adversas que um doente tenha sofrido aquando a toma de um ou mais medicamentos, tanto ao Titular da Autorização de Introdução de Mercado do(s) medicamento(s) suspeito(s), como à Autoridade Competente, e também às Unidades de Farmacovigilância (UF). É estimado que apenas 6% das Reações Adversas a Medicamentos (RAM) sejam notificadas, sendo esta a maior limitação desta metodologia, a subnotificação.
Em Portugal, desde a criação do Sistema Nacional de Farmacovigilância (SNF), em 1992, que a taxa de notificação se encontra abaixo da recomendação da Organização Mundial de Saúde para um centro nacional. Foram assim desenvolvidas várias estratégias, tanto pela Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P. (Infarmed), como pelas UF. Estas são parte integrante do SNF, e têm como responsabilidades a recolha, tratamento e avaliação de todas as notificações de RAM na sua região, para além da disseminação e promoção da divulgação de informação relacionada com a segurança dos medicamentos, tanto para profissionais de saúde, como para a população em geral.
Assim, são desenvolvidas diversas medidas para estimular a notificação de RAM, tais como a minstração de ações de formação, o contacto telefónico para sensibilização de profissionais de saúde, e o estabelecimento de Protocolos de Colaboração entre as Unidades de Farmacovigilância e os Departamentos de Imunoalergologia de Hospitais Centrais. Estes foram pela primeira vez implementados entre a UF do Norte (agora UF do Porto) e um Hospital Central do Porto, e tinham como premissa a recolha de suspeitas de RAM recolhidas pelos Imunoalergologistas no decorrer das consultas de alergia a fármacos realizadas naquele Hospital. A implementação deste Protocolo permitiu que a UF atingisse os objetivos quanto à taxa de notificação espontânea na sua região, recolhendo informação que de outra forma não chegaria ao SNF.
Num estudo realizado pela UF do Porto, a estratégia dos Protocolos de Colaboração revelou ser a metodologia mais custo-efetiva para a recolha de notificações espontâneas de RAM. Este sucesso levou à implementação de mais dois Protocolos de Colaboração desta UF. De seguida, a implementação de Protocolos semelhantes foi também posta em prática pelas UF de Coimbra, e UF de Setúbal e Santarém (agora UF de Lisboa, Setúbal e Santarém).
Objetivos e Métodos
Com este estudo, pretendemos analisar o potencial impacto que o estabelecimento destes Protocolos tem no SNF. Assim, propomo-nos a caracterizar cada um destes Protocolos, com base em entrevistas realizadas com cada uma das Unidades envolvidas, analisando as suas diferenças e similitudes, quer na implementação, como na operacionalização.
Adicionalmente pretendemos analisar os dados das RAM notificadas ao SNF resultantes destes Protocolos, mais especificamente: uma caracterização destes dados, identificando a sua gravidade e conhecimento prévio; a identificação e caracterização dos medicamentos suspeitos de causar a RAM; e a avaliação do impacto da recolha dos dados na avaliação final de imputação de causalidade.
Para este fim, serão analisados os dados de notificações espontâneas de RAM realizadas por Imunoalergologistas, desde janeiro de 2000 até dezembro de 2020. Apenas serão considerados válidos os casos notificados por via direta, sendo que os casos duplicados, nulos ou inválidos foram retirados da análise. Adicionalmente, foi tida em conta a UF responsável pelo caso, e a data de notificação, para avaliar se o caso foi notificado no âmbito do Protocolo.
Resultados
Atualmente, estão em vigor seis Protocolos de Colaboração entre as UF do Porto, Coimbra, e Lisboa, Setúbal e Santarém, e os Hospitais Centrais das suas regiões. Apenas para um dos Protocolos a iniciativa para a sua implementação partiu do Hospital, sendo que nos restantes cinco, partiu das Unidades. Os principais objetivos da implementação dos Protocolos passam pela recolha de informação de segurança dos medicamentos, e também pelo aumento da taxa de notificação espontânea em cada região. De facto, no primeiro ano da sua implementação, o médico Imunoalergologia como notificador representou 10,15% do total de notificações.
De um ponto de vista operacional, todos os Protocolos foram implementados, e operam de forma semelhante. Após a oficialização dos mesmos, foi definido o fluxo de trabalho, e a recolha dos dados é feita com base nos processos clínicos dos doentes, e posteriormente notificada no Portal RAM pelos membros das UF.
Embora as UF considerem que os Protocolos tenham valor acrescentado, referem também que a celebração destes com outros Centros Hospitalares, ou com outros Serviços para além da Imunoalergologia, poderia trazer um aumento na sua carga de trabalho. Assim, os Protocolos tornar-se-iam, de certa forma, contraproducentes, já que as UF deixariam de ter tanta disponibilidade para a notificação das suspeitas de RAM. Isto torna-se paradoxal, já que um dos principais motivos que levou à implementação dos Protocolos foi a falta de disponibilidade dos profissionais de saúde para notificar as RAM com que se deparam no decorrer do seu dia-a-dia.
Entre as formas de melhoria na recolha de notificações espontâneas de RAM para o SNF, identificadas pelas UF, destaca-se a “exportação” automática” das suspeitas de reação adversa identificadas e registadas no âmbito dos registos clínicos dos doentes e do CPARA (Catálogo Português de Alergias e outras Reações Adversas), para o Portal RAM, com o devido consentimento do notificador.
No total, foram notificadas 2495 RAM através dos Protocolos, no período de 2004 – data de estabelecimento do primeiro Protocolo – até 2020. Destas, 79,04% foram classificadas como graves, o que corresponde a 1972 casos.
Através da análise das características dos doentes, foi possíbel observar que 60,56% dos doentes são do sexo feminino.Quanto à faixa etária, 19,88% são referentes a casos com crianças e adolescentes, 42,96% a adultos, 8,70% a idosos, e em 28,46% dos casos não foi possível recolher esta informação.
Dos 2495 casos, foi possível identificar 2814 medicamentos suspeitos. Os medicamentos suspeitos mais frequentemente notificados foram, por DCI, amoxicilina + ácido clavulânico (17,13%), ibuprofeno (11,73%), e amoxicilina (8,10%). A análise dos Códigos ATC foi também realizada com três grandes grupos a distiguirem-se, foram eles J01 – Antibacterianos para uso sistémico (39,13%), M01 – Produtos anti-inflamatórios e anti-reumáticos (21,54%), e N02 – Analgésicos (11,37%).
Tendo em conta que em cada caso podem ser notificadas várias suspeitas de RAM, identificaram-se 7577 RAM distintas. Estas são maioritariamente relacionadas com afeções dos tecidos cutâneos e subcutâneos (49,48%). De facto, as reações mais notificadas foram erupção cutânea (8,96%), urticária (7,06%), prurido (6,68%), dispneia (5,38%), e eritema (5,03%).A análise aos dados da imputação de causalidade foi feita com base em cada caso de suspeita de RAM, e foram considerados 2307 casos como tendo uma imputação válida. Destes, 91,20% foram avaliados, com os graus de causalidade de Definitiva ou Provável, quanto à relação causal entre o medicamento suspeito e a reação adversa. Estes dados foram cruzados com a variável Descrita/Não descrita em RCM (Resumo das Características do Medicamento), que se refere à existência ou não de conhecimento prévio sobre a reação no perfil de segurança do medicamento, tendo sido possível observar que 24,73% dos casos remetiam para reações adversas não descritas (ditas inesperadas) e avaliadas com os graus de probabildade maois elevados (Definitiva e Provável).
Conclusão
O estabelecimento destes Protocolos de Colaboração permitiu a recolha de informação, que de outra forma seria perdida, para o SNF sobre a segurança dos medicamentos comercializados. Por outro lado, tendo em conta que a informação é recolhida através dos registos clínicos dos doentes, mais dados estão disponíveis, permitindo assim que uma maior quantidade de informação, descrita por um profissional de saúde, seja avaliada pelos peritos de farmacovigilância.
Estes Protocolos contribuem para o SNF principalmente no que diz respeito a reações maioritariamente graves, conhecidas e com características alérgicas. Não obstante, o seu impacto é considerado como positivo pelas UF, sendo que é recomendada a sua implementação no restante país.
Por fim, consideramos que é necessária uma análise a todos os dados de RAM notificadas ao SNF durante o período do estudo, 2000 a 2020, para poder verdadeiramente medir o impacto que estes Protocolos de colaboração tiveram no Sistema Português.
Introduction In Portugal, since the establishment of the National Pharmacovigilance System (SNF), the reporting rate observed is below the World Health Organization’s recommendation for an optimal national centre. Various strategies have been therefore developed, both by the Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P. (Infarmed), as well as the Pharmacovigilance Centres (PC). Among the various measures implemented to promote ADR notification, the Collaboration Protocols between PC and the Immunoallergology Departments of Central Hospitals of their regions were developed. These were implemented for the first time between the North (now Porto) PC and a Central Hospital in Porto, and were based on the collection of suspected ADR collected by the Immunoallergologists during drug allergy consultations carried out in that Hospital. In a study conducted by the Porto PC, the strategy of Collaboration Protocols proved to be the most cost-effective methodology for the collection of spontaneous ADR reports. This success led to the implementation of two more Collaboration Protocols at this PC. Subsequently, the implementation of similar protocols was also implemented by the Coimbra, and Setúbal e Santarém (now Lisboa, Setúbal e Santarém) PC. Objectives and Methods With this work, we intend to assess the potential impact that the establishment of these Protocols has on the SNF. Thus, we propose to characterise each one of these Protocols, based on interviews conducted with each of the Centres involved, analysing their differences and similarities, both in implementation and operationalisation. Additionally, we also intend to analyse the data of suspected ADR reported through the Protocols, from January 2000 to December 2020. More in depth, a characterisation of these data, identifying their seriousness and previous knowledge; the identification and characterisation of the medicines suspected of causing the ADR; and the evaluation of the impact of data collection on the final assessment of causality imputation. Results There are currently six Collaboration Protocols established between the Porto, Coimbra, and Lisboa, Setúbal e Santarém PC, and the Central Hospitals of their regions. Their main objectives are to collect information on the safety of medicines, but also to increase the rate of spontaneous reporting in their region. From an operational point of view, all Protocols have been implemented, and operated in similar ways. In total, 2495 ADR were reported through the Protocols, in the period from 2000 to 2020. Of these, 79.04% were classified as serious. The results showed that 60.56% of patients were female. As for the age group, 19.88% referred to cases with children and adolescents, 42.96% to adults, 8.70% to elderly, and in 28.46% of the cases it was not possible to collect this information. Of the 2495 cases, we were able to identify 2814 suspected medicines. The most frequently reported suspected drugs were, amoxicillin + clavulanic acid (17.13%), ibuprofen (11.73%), and amoxicillin (8.10%). A total of 7577 distinct ADR were identified. These were mostly related to skin and subcutaneous tissue disorders (49.48%). In fact, the most frequently reported reactions were rash (8.96%), urticaria (7.06%), pruritus (6.68%). In analysing the causality assessment data, 2307 cases were considered to have a valid assessment. Of these, 91.20% were assessed with a degree of causality of Certain or Probable. It was possible to analyse that 24.73% of the cases were assessed as unknown at the same time as Certain or Probable. Conclusion We conclude that the creation of these Collaboration Protocols has enabled the collection of data which would otherwise be lost to the SNF, on the safety of medicines marketed. These Protocols will feed the SNF of what are mostly serious, known reactions with allergic characteristics. Finally, we consider that an analysis of all ADR data reported to the SNF during the study period (2000 to 2020) is necessary in order to precisely measure the impact that these Collaboration Protocols have had on the Portuguese System.
Introduction In Portugal, since the establishment of the National Pharmacovigilance System (SNF), the reporting rate observed is below the World Health Organization’s recommendation for an optimal national centre. Various strategies have been therefore developed, both by the Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P. (Infarmed), as well as the Pharmacovigilance Centres (PC). Among the various measures implemented to promote ADR notification, the Collaboration Protocols between PC and the Immunoallergology Departments of Central Hospitals of their regions were developed. These were implemented for the first time between the North (now Porto) PC and a Central Hospital in Porto, and were based on the collection of suspected ADR collected by the Immunoallergologists during drug allergy consultations carried out in that Hospital. In a study conducted by the Porto PC, the strategy of Collaboration Protocols proved to be the most cost-effective methodology for the collection of spontaneous ADR reports. This success led to the implementation of two more Collaboration Protocols at this PC. Subsequently, the implementation of similar protocols was also implemented by the Coimbra, and Setúbal e Santarém (now Lisboa, Setúbal e Santarém) PC. Objectives and Methods With this work, we intend to assess the potential impact that the establishment of these Protocols has on the SNF. Thus, we propose to characterise each one of these Protocols, based on interviews conducted with each of the Centres involved, analysing their differences and similarities, both in implementation and operationalisation. Additionally, we also intend to analyse the data of suspected ADR reported through the Protocols, from January 2000 to December 2020. More in depth, a characterisation of these data, identifying their seriousness and previous knowledge; the identification and characterisation of the medicines suspected of causing the ADR; and the evaluation of the impact of data collection on the final assessment of causality imputation. Results There are currently six Collaboration Protocols established between the Porto, Coimbra, and Lisboa, Setúbal e Santarém PC, and the Central Hospitals of their regions. Their main objectives are to collect information on the safety of medicines, but also to increase the rate of spontaneous reporting in their region. From an operational point of view, all Protocols have been implemented, and operated in similar ways. In total, 2495 ADR were reported through the Protocols, in the period from 2000 to 2020. Of these, 79.04% were classified as serious. The results showed that 60.56% of patients were female. As for the age group, 19.88% referred to cases with children and adolescents, 42.96% to adults, 8.70% to elderly, and in 28.46% of the cases it was not possible to collect this information. Of the 2495 cases, we were able to identify 2814 suspected medicines. The most frequently reported suspected drugs were, amoxicillin + clavulanic acid (17.13%), ibuprofen (11.73%), and amoxicillin (8.10%). A total of 7577 distinct ADR were identified. These were mostly related to skin and subcutaneous tissue disorders (49.48%). In fact, the most frequently reported reactions were rash (8.96%), urticaria (7.06%), pruritus (6.68%). In analysing the causality assessment data, 2307 cases were considered to have a valid assessment. Of these, 91.20% were assessed with a degree of causality of Certain or Probable. It was possible to analyse that 24.73% of the cases were assessed as unknown at the same time as Certain or Probable. Conclusion We conclude that the creation of these Collaboration Protocols has enabled the collection of data which would otherwise be lost to the SNF, on the safety of medicines marketed. These Protocols will feed the SNF of what are mostly serious, known reactions with allergic characteristics. Finally, we consider that an analysis of all ADR data reported to the SNF during the study period (2000 to 2020) is necessary in order to precisely measure the impact that these Collaboration Protocols have had on the Portuguese System.
Descrição
Tese de mestrado, Regulação e Avaliação do Medicamento e Produtos de Saúde, 2021, Universidade de Lisboa, Faculdade de Farmácia.
Palavras-chave
Spontaneous report Underreporting Immunoallergology Drug allergy Teses de mestrado - 2021
