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A prosódia do Guineense (Kriol) e do Português falado na Guiné-Bissau : análise de tipos frásicos
Publication . Braga, Gabriela; Svartman, Flaviane Romani Fernandes; Frota, Sónia Marise de Campos
A Guiné-Bissau é um dos países africanos de língua oficial portuguesa. Entretanto, essa não é
a línguamaterna e nema segunda línguamais falada pela população. É o guineense (kriol) que
detém o status de língua de identidade nacional e é falado pela maioria da população (seja
como língua materna ou como uma daquelas faladas como segunda língua). Diante dessa
realidade, questionamos se, do ponto de vista linguístico, podemos assumir que o português
falado na Guiné-Bissau seja uma variedade (ainda que em formação) de português. Ante a
essa pergunta, levantamos as seguintes hipóteses: (i) o português falado na Guiné-Bissau
(doravante PGB) é uma variedade de português emformação já distinta do português europeu
(adotado como a norma padrão no país), adquirida como uma segunda língua, e que
apresenta traços em comum com as demais variedades ultramarinas de português,
nomeadamente as variedades brasileiras e africanas; e (ii) o contato entre a língua guineense
(kriol) e a língua portuguesa tem um papel importante na constituição das características
prosódicas desse PGB. Para a realização desta pesquisa, utilizamos o aparato teórico da
Fonologia Prosódica e da Fonologia Entoacional Autossegmental Métrica. A recolha e análise
de dados foi semelhante à utilizada no projeto InAPoP, visando a comparação dos resultados
encontrados com aqueles já descritos na literatura para outras variedades de língua
portuguesa (variedades de português europeu, brasileiro, santomense, angolano e
moçambicano), tendo como foco a descrição e análise das sentenças declarativas neutras,
declarativas enumerativas, interrogativas totais neutras e interrogativas parciais dessas duas
línguas (guineense e PGB). Para a obtenção de dados que correspondessem a esses tipos
frásicos, tanto em PGB quanto em guineense, analisamos dados de fala controlada e fala
semiespontânea. Nossos resultados demonstram que, quanto às sentenças declarativas
neutras, o guineense e o PGB apresentam alta densidade tonal, alta distribuição de acentos
tonais associados ao longo do contorno entoacional, sendo encontrado um acento tonal
associado a praticamente todas as palavras prosódicas (PWs) cabeça de sintagma fonológico
(PhP), além de um contorno com mudanças melódicas abruptas, especialmente pela
configuração H* e !H* dos acentos tonais pré-nucleares, criando um comportamento de
“degraus” no contorno entoacional. Os resultados das sentenças enumerativas corroboraram
os resultados encontrados para as duas línguas quanto ao contorno nuclear dos sintagmas
entoacionais (IPs) não finais de enunciado, além da pausa e do alongamento da sílaba tônica
da PW cabeça de IP não final serem pistas relevantes para a marcação de sua fronteira. As
sentenças interrogativas totais neutras apresentam comportamentos distintos: enquanto no
PGB encontramos picos nas fronteiras esquerda e direita de IP e muitos acentos tonais !H*
associados às PWs internas de IP, utilizando a estratégia de redução da declinação e da
expansão de registro (comuns a muitas línguas africanas), o guineense utiliza
preferencialmente uma estrutura que indique o tipo frásico através da cadeia segmental, além
do contorno entoacional apresentar um pico em seu início e seguir num movimento
descendente até o contorno nuclear descendente ou baixo, apresentando poucas pistas da
distinção entre declarativas e interrogativas totais através do contorno entoacional. Em
relação às outras variedades, as interrogativas totais do PGB se assemelhamàs das variedades
africanas de português por PhP ser o domínio prosódico privilegiado para a distribuição de acentos tonais, mas se difere destas ao considerarmos a alternância entre tons altos e baixos,
um dos aspectos do macro-ritmo, que é muito forte nas demais variedades africanas e fraca
no PGB. Tambémse diferencia quanto ao contorno nuclear e à densidade tonal das variedades
brasileiras (especialmente do nordeste) e das variedades de português europeu, que
majoritariamente apresentam o contorno nuclear ascendente, e especialmente de SEP, cujo
contorno é descrito como descendente-ascendente, mas se aproxima das variedades
brasileiras de português que apresentam o contorno entoacional descendente (variedades do
sudeste), embora o PGB apresente, para este tipo frásico, uma densidade tonal muito mais
alta do que as variedades brasileiras e um macro-ritmo com menor alternância tonal. Sendo
assim, nossos resultados indicam que a prosódia do PGB é diretamente influenciada pelas
características prosódicas do guineense quanto às sentenças declarativas neutras, mas que o
comportamento prosódico das sentenças interrogativas totais neutras do PGB já aponta para
um caminho próprio de sua gramática entoacional, ao divergir do comportamento prosódico
apresentado pelas variedades de PE, e que reflete, ao menos em parte, seu multilinguismo
local, ao adotar uma estratégia comum às línguas africanas para a diferenciação do
comportamento entoacional de sentenças declarativas e interrogativas.
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6817 - DCRRNI ID
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