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Projeto de investigação
SINTAXE E SEMÂNTICA DAS CONSTRUÇÕES COM SINTAGMAS NOMINAIS SIMPLES
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Bare nouns in european portuguese
Publication . Soares, Nuno João Verdial Rosa; Duarte, Maria Inês Pedrosa da Silva; Oliveira, Maria de Fátima Favarrica Pimenta de
Esta dissertação tem como objectivo descrever as condições de ocorrência – sintácticas, semânticas e discursivas – de sintagmas nominais simples em posição de sujeito pré-verbal em português europeu. Os sintagmas nominais simples (em inglês, Bare Noun Phrases) ocorrem em diversas línguas com distribuições nem sempre coincidentes. Estes nominais, particularmente os massivos e os contáveis no plural, podem ocorrer em inglês e nas línguas românicas (com excepção do francês) quer como argumentos quer como predicados. No que diz respeito às posições argumentais, as línguas românicas permitem a sua ocorrência como sujeitos pós-verbais e como objectos, enquanto em inglês os nomes simples ocorrem aparentemente sem restrições. Este contraste sintáctico tem efeitos na interpretação: em posição pós-verbal os nomes simples são lidos (preferencialmente) como existenciais, enquanto a posição pré-verbal pode permitir quer uma leitura existencial quer uma leitura genérica. A primeira questão a este respeito decorre de uma assimetria (a possibilidade versus a impossibilidade de ocorrência em posição pré-verbal), mas também da relação entre a distribuição as leituras obtidas. A maioria dos estudos sobre sintagmas nominais simples concentra-se no inglês e parte da relação estabelecida por Carlson (1977) entre as leituras destes nominais como sujeitos e os tipos de predicado com que ocorrem naquela língua. Assim, a leitura genérica é obtida com predicados de espécie e a leitura existencial com predicados de estádio. Com predicados de indivíduo, a leitura é ambígua. A solução para o problema desta ambiguidade motivou a investigação posterior. Autores como Dayal (1992), Longobardi (1994), Chierchia (1998), Crisma (1999), Lai-Shen & Sybesma (1999), Schmitt & Munn (1999), Delfitto (2002), Zamparelli (2002), Déprez (2003), Krifka (2003), entre outros, propuseram análises com base nas línguas românicas (incluindo o português do Brasil), nas línguas germânicas, nos crioulos, no chinês e no híndi.A discussão teórica centrou-se na necessidade de fazer intervir operadores capazes de ajustar os nomes simples, entendidos por Carlson como nomes de espécie, às propriedades dos predicados, mas também se debruçou sobre a estrutura do domínio nominal. À excepção da proposta de Chierchia (1998) sobre a não projecção de um sintagma de determinante por um princípio de economia, é quase consensual que os sintagmas nominais simples projectam esse sintagma e que a posição D (núcleo do sintagma) vazia é a chave para as leituras obtidas quer em inglês quer nas outras línguas, nomeadamente as românicas.Assim, Longobardi (2008) propõe que, na posição D, se verifiquem traços de Pessoa e
parametriza as línguas de acordo com a necessidade de verificar esses traços. Em inglês, os
nomes simples podem subir para D, nas línguas como o italiano pode ser inserido um
determinante, presumivelmente expletivo. Delfitto (2002), na linha das propostas de Longobardi
(1994) e seguintes, e retomando a ideia de Contreras (1986) de regência própria, considera que
os nomes simples são quantificadores generalizados (e não nomes de espécie) que, em inglês,
podem subir para D e, nas línguas românicas, só sobrevivem se essa posição for regida por um
verbo ou por uma preposição. A subida de N(ome) para D em inglês permite a leitura genérica;
a posição D vazia, licenciada e legitimada por um verbo ou uma preposição permite apenas a
leitura existencial. A leitura existencial dos sintagmas nominais simples com predicados de
indivíduo em inglês deve-se, segundo Delfitto (2002), à possibilidade de reconstrução no
interior do sintagma verbal. Esta análise, que propõe a intervenção de outros mecanismos
sintácticos, mantém no entanto a condição de regência pelo verbo e consequente leitura
existencial do sintagma nominal.
Delfitto (2002) considera ainda que, no caso dos predicados de indivíduo não permanentes, a
presença de uma oração relativa licencia e legitima o D vazio, de acordo com a análise de
Kayne (1994) e Bianchi (1995) das orações relativas. Nestes predicados, existe quantificação
sobre eventos resultante da presença de um quantificador não ligado, de que resulta uma leitura
genérica da frase, mas não do sintagma nominal sujeito em posição pré-verbal.
O português europeu é uma língua românica que se comporta de uma forma geral como o
italiano, tal como ele é descrito por Delfitto (2002). Oliveira & Cunha (2003), aliás,
demonstram que os nomes de espécie em português europeu dependem crucialmente da
presença de um determinante definido. Assim, os nomes simples não são nomes de espécie nem
podem ter leituras genéricas. Ocorrem geralmente em posições pós-verbais e têm uma leitura
existencial.O facto de ser possível encontrar ocorrências de sintagmas nominais simples em diferentes
contextos sintáctico-semânticos e discursivos em português europeu contraria aparentemente a
descrição feita na literatura. Os sintagmas nominais simples em posição de sujeito pré-verbal em
português europeu podem ocorrer como tópicos marcados, em frases que parecem constituir
juízos categóricos, com leituras não existenciais com predicados de espécie ou de indivíduo ou
em frases caracterizadoras. Ocorrem também, mas com leituras existenciais, em frases que
parecem constituir subtópicos discursivos em contextos descritivos, como ‘scripts’, no sentido
de Fillmore (1985).Quando ocorrem com leituras não existenciais, os contextos aproximam-se do discurso dos
provérbios, tal como é descrito por Lopes (1992). Lopes (1992) refere-se à leitura genérica
destes sintagmas (no caso, no singular) como uma consequência de não estar presente nenhum
determinante lexical.
A diferença maior, porém, é que os sintagmas nominais simples que ocorrem em provérbios
são tipicamente singulares. E a presença de número morfológico permite estabelecer diferenças
cruciais entre sintagmas plurais e sintagmas singulares. Estes últimos não podem ocorrer com
predicados de espécie nem com predicados de estádio estativos e remetem sempre para leituras
prototípicas. Os sintagmas plurais denotam um conjunto de átomos não-específico que permite a
sua ocorrência numa maior diversidade de contextos.
A consideração de que a informação de número é também crucial para a descrição dos
comportamentos dos nomes simples, tendo em conta trabalhos como o de Swart, Winter &
Zwarts (2007) ou o de Espinal (2010), entre outros, leva-nos à adopção de uma projecção de
número (Ritter, 1991) no interior do sintagma do determinante para a qual o nome se move para
verificar traços como [contável] (Crisma, 1999) e [plural]. Esta projecção será também
necessária no caso de nomes simples no singular em posição de sujeito. A posição D contém
traços não verificados de Pessoa (Longobardi, 2008), Referência ou Definitude que, em
português europeu, não são verificados por subida de N para D.
A sobrevivência dos nomes simples em posição pré-verbal depende da sua combinação com os
tipos de predicado e também com os valores de aktionsart, de forma muito semelhante ao
proposto por Oliveira, F. et al. (2006), em que o traço [±habitual] determina a possibilidade ou a
impossibilidade de subida do sintagma sujeito para uma posição pré-verbal (Spec, TP ou, como
aqui é proposto, TopP). No caso dos sintagmas nominais simples com leitura não existencial, é
possível que o traço seja [+gnómico], considerando as observações feitas para os contextos
proverbiais por Lopes (1992).A proposta de que os sintagmas nominais simples, quando ocorrem com predicados com um
traço aspectual [+gnómico], se deslocam para uma posição na periferia esquerda da frase tem
duas motivações: a primeira é que a posição é não argumental e foge à restrição de regência ou
comando-c assimétrico de um verbo ou de uma preposição, permitindo uma leitura não
existencial do nome; a segunda é que os traços não verificados em D, que permanece vazio, são
legitimados por um traço da posição TopP, nomeadamente o que corresponde a ‘acerca de /
quanto a’, de acordo com a proposta de Reinhart (1981) para os tópicos marcados. Embora os sujeitos em português europeu sejam tópicos não marcados, tal como argumentam
Costa & Duarte (2002), as características sintácticas e semânticas dos nomes simples e dos
contextos em que ocorrem permitem que se movam por razões discursivas, fazendo parte da
gestão do campo comum (‘common ground management’) aos participantes, tal como é
definido por Bianchi & Frascarelli (2010). Estes sintagmas são ou tópicos ‘acerca de’ (em
inglês ‘aboutness topics’) ou tópicos contrastivos (Büring, 1999), e ocorrem fundamentalmente
em frases raiz ou subordinadas epistémicas. São assim crucialmente distintos dos sintagmas
definidos em posição de sujeito pré-verbal, que não dependem dos mesmos constrangimentos
discursivos.
A disponibilidade de uma leitura não existencial dos nomes simples como sujeitos de
predicados de actividade depende também de um efeito de paralelismo: nomes simples como
objectos facilitam a leitura não existencial dos nomes simples sujeito que ocorram com
predicados com valor [+ gnómico].
A construção de Topicalização, tal como é descrita por Duarte (1987 e 1996), parece poder
acomodar a descrição sintáctica do comportamento dos nomes simples em posição pré-verbal
com uma leitura não existencial. A disponibilidade desta construção em português explica o
contraste com línguas como o espanhol e o italiano, que dela não dispõem.
Em contextos descritivos, os nomes simples no plural ocorrem como subtópicos de um ‘script’
(Fillmore, 1985), ou seja, informações decorrentes de uma situação estereotipada. De acordo
com Abbot, Black & Smith (1985), os ‘ scripts’ organizam-se numa hierarquia em que os níveis
mais baixos têm uma relação de partonímia com os níveis mais altos. Assim, uma situação
explícita ou implícita permite a introdução de informação explícita de um nível mais baixo não
passível de ser inferida. As inferências, no sentido de Johnson-Laird (2013), mais propriamente
as induções, conduzem a uma das conclusões possíveis da premissa expressa pelo tópico
discursivo mais amplo.
Assim, os sintagmas nominais simples podem ser também elementos mais baixos de uma
hierarquia que pode ser inferida ou inferências possíveis de um elemento mais alto na
hierarquia. São lidos como existenciais e reconstruídos numa posição pós-verbal. As frases que
integram são juízos téticos. A posição pré-verbal confere-lhes proeminência e a sua posição em
Spec, TP decorre também de uma acumulação de eventos ou estados ou de uma conexão lógica
em que o conector é nulo, sendo a relação (paratáctica) com o contexto sintáctico decorrente da
hierarquia de significado possibilitada pelo ‘script’. Nestes casos, quando os nomes simples coocorrem
com o presente do indicativo, este nunca tem um traço [+gnómico]. Na maioria dos casos de subordinação adverbial (central ou periférica) ou em orações relativas,
a leitura existencial preferencial dos sintagmas nominais simples em posição de sujeitos préverbais
sugere a possibilidade de conjunções ou conectores com algum conteúdo lexical
poderem ter as mesmas propriedades que os verbos e as preposições e licenciar o D vazio numa
relação de comando-c assimétrico.
Quanto aos modificadores do nome, não parece ser possível generalizar a teoria de Delfitto
(2002) aos adjectivos e aos sintagmas preposicionais. De acordo com a análise proposta por
Miguel (2004), só os adjectivos que ocorrem apenas numa posição pré-nominal (como ‘mero’)
não podem modificar nomes não definidos; são portanto incompatíveis com nomes simples.
Todos os outros podem ser modificadores de nomes simples, embora, se considerarmos a
sugestão de Lopes (1992), o adjectivo pós-nominal crie uma subespécie, podendo assim ser
facilitador de uma leitura não-existencial do nome. Os adjectivos que ocorrem em posição prénominal,
embora possam também ocorrer numa posição pós-nominal, desencadeiam leituras
existenciais preferenciais, tal como sugere Demonte (1999).
As orações relativas, de uma forma geral, melhoram também, em português europeu, a
aceitabilidade dos nomes simples em posição de sujeito pré-verbal com predicados de espécie e
de indivíduo (faseáveis ou não faseáveis, de acordo com a terminologia proposta por Oliveira, &
Cunha, 2003, na sequência de Cunha, 1998) e de estádio (à excepção dos locativos). Assim, a
proposta de Delfitto (2002) apresenta fragilidades que impedem a sua adopção sem uma
investigação mais aprofundada.
A aceitação de nomes simples (não modificados) em português europeu em posição de sujeito
pré-verbal por falantes nativos justifica-se em contextos discursivos determinados e depende ou
do licenciamento do D vazio por uma categoria com conteúdo lexical ou da sua ocorrência
como subtópico discursivo numa sequência explícita ou inferida, ou ainda do movimento para
uma posição não-argumental. Tipicamente, estas condições estão ligadas aos tipos de predicado
com que ocorrem, e sobretudo ao seu valor aspectual [±gnómico]. Se ocorrerem como
verdadeiros argumentos, obtêm uma leitura existencial. Caso contrário, a sua leitura será
aparentemente genérica.
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SFRH/BD/41844/2007
