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Projeto de investigação
Neuronal circuits underlying egg laying behavior in the fruit fly
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Neuronal circuits of egg laying behaviour in Drosophila melanogaster
Publication . Santos, Sara Ferreira Lopes Marques dos; Vasconcelos, Maria Luísa; Sucena, José Élio da Silva
Uma questão central em neurociência comportamental é como é que o sistema nervoso central
produz uma sequência de ações motoras para induzir comportamento, após a decisão para a sua
execução ter sido sinalizada pelo cérebro. Para responder a esta pergunta, o organismo modelo
Drosophila melanogaster tem sido amplamente utilizado, não só pela facilidade de ser mantido em
laboratório e ferramentas genéticas disponíveis, mas também porque tem um sistema nervoso
relativamente simples que é capaz de executar comportamentos complexos.
Um desses comportamentos é o comportamento de oviposição, que oferece uma excelente
oportunidade de explorar a arquitetura do controlo motor, pois é um comportamento inato, coordenado
no tempo, sincronizado com o estado interior do animal e flexível para o animal ser capaz de superar
mudanças inesperadas no ambiente. Assim, o comportamento de oviposição tem um impacto profundo
na sobrevivência e fitness das espécies ovíparas. Em Drosophila, este comportamento é composto por
um ciclo de fases que incluem deposição do ovo (egg deposition), contorções abdominais (abdominal
contortions) e exploração (exploration), subdividido em sete comportamentos específicos. Estes sete
comportamentos incluem: o contacto do ovipositor, uma estrutura em forma de tubo temporariamente
expelida, com o substrato (ovipositor contact), enterrar o ovipositor (burrowing), fazer força para a
expulsão do ovo (egg pushing), curvar o abdómen para cortar a ligação com o ovo posto (abdomen
curling) e a limpeza do abdómen (grooming terminalia), durante a fase de deposição do ovo;
alongamento (abdominal elongation) seguido de encurtamento (abdominal scrunch) do abdómen com
ondulações e expulsão do ovipositor, durante a fase das contorções abdominais; extensão da probóscide
(proboscis extension), contacto e enterrar o ovipositor no substrato, durante a fase de exploração. Todos
estes elementos comportamentais são executados para promover a deposição do ovo, a ovulação e a
degustação do substrato, respetivamente.
É através do sistema nervoso central que a mosca consegue executar os comportamentos
motores. Este é constituído pelo cérebro e pelo cordão nervoso ventral, uma estrutura análoga à medula
espinal dos vertebrados. A informação sensorial do ambiente é recolhida e transmitida ao cérebro, onde
a decisão para a execução do comportamento é tomada. A decisão é depois transmitida ao cordão
nervoso ventral, que é constituído por unidades torácicas que controlam os movimentos das asas e patas
e, na ponta, o gânglio abdominal, o qual induz à execução coordenada dos comportamentos
reprodutivos.
Apesar dos esforços, continua por se determinar como os neurónios do gânglio abdominal
induzem os circuitos motores que controlam os comportamentos específicos de oviposição. A atividade
de neurónios onde o fragmento H3 de um promotor de doublesex induz expressão – neurónios H3 –
mostrou comportamentos de oviposição e o seu padrão de expressão mostrou corpos celulares no
gânglio abdominal. Assim sendo, o presente estudo teve como objetivo determinar o papel dos
neurónios H3 na oviposição (Objetivo 1) com o intuito de encontrar uma associação mais profunda
entre o gânglio abdominal e os vários comportamentos de oviposição.
Assim, testámos o efeito da ativação dos neurónios H3 através da expressão neuronal de canais
sensíveis à luz vermelha CsChrimson, usando o sistema binário de expressão lexA-lexAop e enquanto
gravámos os comportamentos em vídeo (Objetivo 1.1); usámos novamente o sistema lexA-lexAop para
testar a contribuição dos neurónios H3 para a oviposição, através da expressão neuronal de canais
potássio Kir2.1 que efetuam silenciamento, enquanto analisámos o comportamento e contámos o
número de ovos postos (Objetivo 1.2). Para ambas as experiências usámos moscas sem promotor e com
o sistema lexA-lexAop completo como controlo. No fim, caracterizámos o perfil de neurotransmissores
dos neurónios H3 (Objetivo 2). Para isso usámos a técnica de co-localização, em que o sistema lexAlexAop foi usado para expressar uma proteína de fluorescência vermelha nos neurónios H3 e, ao mesmo tempo, o sistema de expressão GAL4-UAS foi usado para expressar a proteína de fluorescência verde
nos neurónios que expressam transportador de glutamato vesicular, acetiltransferase de colina ou
descarboxilase 1 de ácido glutâmico, que indicaram se os neurónios eram glutamatérgicos, colinérgicos
ou GABAérgicos, respetivamente. Assim, os neurónios H3 que expressam cada um dos
neurotransmissores, foram identificados através da sobreposição das cores escolhidas.
O padrão de expressão dos neurónios H3 mostrou 13 corpos celulares no gânglio abdominal,
que acreditamos estarem relacionados com comportamentos de oviposição e marcação dispersa no
cérebro e restante cordão nervoso ventral, que duvidamos estarem relacionados com a execução dos
comportamentos de oviposição.
A ativação dos neurónios H3 levou à execução de comportamentos que anotámos como
Abdominal Bending – curvatura no abdómen, em que a ponta final fica virada para o substrato;
Abdominal Hook – o abdómen está direito na sua parte mais anterior e depois curva na ponta posterior
em direção ao substrato; Ovipositor Extrusion – extrusão do ovipositor; Long Abdomen – aumento
visível do comprimento do abdómen; e Round Abdomen – encurtamento do abdómen formando uma
bola. Vimos que estes comportamentos eram incompletos, sendo parecidos com o início de
comportamentos de oviposição apresentados por fêmeas grávidas, nomeadamente os comportamentos
pertencentes à fase das contorções abdominais (Abdominal Hook, Ovipositor Extrusion e Round
Abdomen). Descobrimos que a execução dos comportamentos de ativação podem ter a contribuição do
cérebro ao analisarmos fêmeas após a remoção da cabeça. A análise do padrão de expressão e atividade
dos neurónios H3 nos machos levaram à conclusão de que estes neurónios são sexualmente dimórficos,
com dois dos comportamentos de ativação a serem específicos da fêmea (Ovipositor Extrusion e Round
Abdomen).
O silenciamento dos neurónios H3 levou a uma abolição de deposição de ovos em 78% das
moscas, com disrupção dos elementos motores associados aos comportamentos de oviposição das três
fases. As restantes moscas que puseram ovos foram capazes de realizar os comportamentos de
oviposição. A redução drástica na oviposição não estava relacionada com problemas de acasalamento
nem de oogénese. Ao analisarmos como a oviposição das moscas H3 silenciadas evoluía ao longo do
tempo, descobrimos que todas as moscas eram capazes de pôr ovos, no entanto com um atraso, o que
nos levou a questionar a influência do protocolo de privação de oviposição que executamos antes das
experiências para induzir a deposição dos ovos. Assim, testámos se as moscas teriam um problema a
reiniciar a oviposição depois de esta ter sido suspensa ou se teriam um problema em reter os ovos
durante a privação. A partir deste ponto, em todas as experiências observámos que as moscas H3
silenciadas colocaram igual (1 hora) e superior (de 6 a 24 horas) quantidade de ovos, comparadas com
o controlo. Assim, observámos que os resultados de menor frequência de oviposição das moscas H3
silenciadas são pouco robustos, o que nos mostrou um possível novo papel dos neurónios H3.
Assim, o silenciamento dos neurónios H3 revelou que estes não são necessários para a execução
dos comportamentos de oviposição, pois a inibição da atividade neuronal levou ao aumento dos eventos
de deposição do ovo ao longo do tempo, comparativamente com o controlo. Este resultado indica que
os neurónios H3 podem estar envolvidos num mecanismo de supressão de oviposição. Como as moscas
controlo têm uma redução mais acentuada, ao longo do tempo, de oviposição do que as silenciadas,
levou-nos a especular que os neurónios H3 podem estar envolvidos num mecanismo de controlo da
densidade de ovos no ambiente. Em adição, ao juntarmos os resultados das experiências de ativação e
silenciamento, acreditamos que os neurónios H3 podem estar a suprimir a expulsão do ovo no fim das
contorções abdominais, até o local ideal para a descendência ser encontrado. Durante a experiência de
silenciamento obtivemos informações importantes com interesse para futuras experiências com foco
em oviposição. Observámos que para experiências de curta duração (ex. com captura de vídeo), usar o
protocolo de privação de oviposição é vantajoso por incitar as fêmeas a depositarem mais ovos no novo
ambiente. No entanto, para experiências mais longas (ex. contagem de ovos após 24 horas), o protocolo de privação não é necessário, permitindo poupar tempo e material utilizados para esse fim. Esta
experiência também nos mostrou que usar comida em experiências que não seja necessário ver através
do substrato, aumenta a frequência de oviposição, comparando com substrato de agarose (1%).
Por fim, ao analisarmos o perfil de neurotransmissores dos neurónios H3, vimos que estes serão
certamente colinérgicos.
Este trabalho cria a oportunidade para melhor entender a comunicação ascendente e
descendente com o cérebro e aumenta o conhecimento sobre a extensão neuronal e conetividade entre
populações de neurónios subjacentes ao comportamento de oviposição, servindo de base para a
descoberta de como diferentes circuitos estão conectados para coordenar comportamento e contribuindo
para elucidar como as ações motoras estão codificadas no sistema nervoso central.
Unidades organizacionais
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Palavras-chave
Contribuidores
Financiadores
Entidade financiadora
Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Programa de financiamento
Concurso de Projetos IC&DT em Todos os Domínios Científicos
Número da atribuição
PTDC/BIA-COM/2962/2021
