Logo do repositório
 
A carregar...
Logótipo do projeto
Projeto de investigação

MANIFESTAÇÕES E PRESENÇAS DO SOBRENATURAL NA ANTIGUIDADE

Autores

Publicações

Inueni, germana, uiam : studies on magic in Vergil's Aeneid 4 and latin literature
Publication . Silva, Gabriel Alexandre Fernandes da; Alberto, Paulo Jorge Farmhouse Simões
A linha que separa os conceitos de magia e de religião no mundo antigo nem sempre é clara. Por vezes, são mais as perguntas que estes termos levantam do que as respostas que dão. Não será, contudo, meu objectivo nesta tese trabalhar as diferenças entre estes dois planos, o religioso e o da feitiçaria, mas antes estudar um conjunto de textos e fenómenos tradicionalmente associados a actos mágicos que se encontram, por exemplo, em testemunhos como as tabellae defixionum e os Papiros Mágicos Gregos. Estudando um episódio concreto da Eneida (4.474-521), momento em que assistimos à realização de um ritual de magia, partirei para outros textos e temas relacionados com a prática de feitiçaria na literatura clássica. Quando Eneias está em Cartago, Vergílio representaVo vestido de púrpura tíria, claro sinal de perda da grauitas!romana que Augusto pretende recuperar durante os seus anos de principado. Júpiter, observando a atitude do herói troiano, envia Mercúrio para o relembrar do objectivo da sua missão. Contudo, abandonar Cartago significa deixar para trás Dido, que por ele se apaixonara. Perante a iminência da partida, a rainha, contra a sua vontade e levada pelo desespero, decide iniciar um conjunto de rituais mágicos. O texto de Vergílio, porém, não é claro sobre o tipo de efeito a alcançar. De facto, é possível interpretáVlo de duas formas: por um lado, Dido quer reter o amor de Eneias, por outro, deixar de sentir amor por ele. Perante um passo tão complexo e rico em ecos, afigurouVse útil elaborar primeiro um breve comentário que sistematizasse todas as fontes relevantes para a compreensão do episódio. A partir desta leitura prévia, ficamos com uma visão mais ampla deste trecho e dos elementos que Vergílio usou para a sua composição: aspectos métricos e estilísticos, fontes e modelos literários e não literários, como defixiones e papiros mágicos. As descrições de actos de feitiçaria na literatura latina são, em muitos aspectos, devedoras das práticas narradas por autores gregos, especialmente a partir da época helenística. Os capítulos seguintes, que compõem a segunda parte deste trabalho, incidem sobre estes aspectos. Foi com Teócrito que se tornou comum a descrição de rituais mágicos nas suas mais variadas vertentes, sobretudo no que diz respeito à bruxaria de teor erótico. Não pode, por isso, haver uma total compreensão do que entendemos por magia erótica, nomeadamente no caso dos feitiços de condução (agogai), sem uma análise prévia de textos de autores como Calímaco e Teócrito. Dido refere que é contra a sua vontade que vai recorrer a artes mágicas, pois entende que é a única forma que tem de lidar com a decisão de Eneias de partir. Deste modo, Vergílio está a filiar o seu texto numa longa tradição literária de mulheres que decidem encetar rituais de feitiçaria plenamente conscientes de que esta não é uma solução correcta nem aceitável. Fazem-no, por exemplo, Dejanira e Fedra. Estas figuras estão, pois, a agir em sentido contrário ao que é comum pensar-se das mulheres que praticam bruxaria, uma vez que estas últimas são sempre retratadas de forma negativa e descritas como elementos que vivem à margem das sociedades. Figuras como Dejanira, Fedra ou Dido encontram-se num nível diferente, são membros da realeza mitológica, obedecendo, por isso, a uma conduta distinta. Não são mulheres do quotidiano, banais, sem instrução. Como já referimos, a grande questão que o episódio de magia da Eneida tem levantado é se estamos perante um ritual de magia erótica ou de magia destrutiva. Sobre este aspecto procuro oferecer alguns dados na terceira parte da tese. Dido, com efeito, não é clara no seu objectivo, resultado da perturbação mental que sente perante a súbita partida de Eneias. Para dar uma nova luz a este problema, é necessário olhar para outros textos mágicos que sustentem a tese mais plausível. A meu ver, estamos diante de um ritual essencialmente de magia erótica (embora a outra hipótese não possa ser totalmente descartada, acabando os dois planos, de certa forma, por se confundir). Os elementos que sustentam esta ideia são mais claros e significativos e encontram paralelo em outras fontes literárias anteriores e posteriores a Vergílio, como, por exemplo, Teócrito, Calímaco, Luciano ou Apuleio. O facto de a memória ser um aspecto presente no ritual levado a cabo por Dido constitui mais um argumento a favor da tese de que estamos perante um texto de feitiçaria erótica. Há, de facto, inúmeros exemplos de rituais de magia amorosa em textos não literários nos quais, não raras vezes, se pretende obliterar a memória das vítimas dos feitiços, tornando-as mais frágeis. Por ser um episódio de referência na obra vergiliana, muitos foram os autores que nele se inspiraram. No capítulo final da tese, analiso vários textos relacionados com temáticas de magia abordados do ponto de vista do género didáctico. Após uma leitura dos poemas didácticos de Ovídio e, em particular, dos passos sobre a ineficácia da feitiçaria, apresento uma análise da oitava Ecloga de Vergílio e do episódio da descrição do laboratório de magia de Pânfila no livro 3 das Metamorfoses de Apuleio, além da própria cena de bruxaria da Eneida, comparando indícios de um eventual estilo didáctico nestes textos com elementos de ensinamento inerentes às práticas mágicas descritas nos papiros gregos. Proceder-se-á a uma análise filológica, incidindo, designadamente, sobre o registo linguístico e o vocabulário que é habitualmente associado a textos tidos como educativos, como as Gergicas.

Unidades organizacionais

Descrição

Palavras-chave

Contribuidores

Financiadores

Entidade financiadora

Fundação para a Ciência e a Tecnologia

Programa de financiamento

Número da atribuição

SFRH/BD/95841/2013

ID