Browsing by Author "Alves, Isabel Barroso Melo"
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- Concordância negativa transfrásica no português europeu : o papel das propriedades semânticas do predicadoPublication . Alves, Isabel Barroso Melo; Marques, Rui; Santos, Ana LúciaA presente dissertação tem como objetivo investigar a Concordância Negativa Transfrásica (CNT) em falantes monolingues do português europeu (PE) como língua materna. Por Concordância Negativa Transfrásica entende-se a concordância entre dois elementos, aparentemente negativos, um localizado na frase matriz e outro na oração subordinada, tipicamente uma subordinada completiva. Por ser legitimado pelo operador de negação da frase matriz (e.g. não), o elemento negativo da oração subordinada (uma expressão autonegativa como ninguém, nenhum x ou nada) entra em concordância negativa e tem valor positivo (i.e., ninguém é interpretado como alguém, nenhum x como algum x, etc.). Esta interpretação de CNT parece verificar-se em frases como O maestro não quer que ninguém se sente na primeira fila, por exemplo, contrastando com frases como A Maria não sabe que ninguém veio, em que a leitura é de Negação Plena (NP). Tanto quanto pude averiguar, só Peres (1994 e 2000) estudou a concordância negativa através de fronteiras oracionais em PE. O autor coloca a hipótese de a monotonia ser relevante para determinar a leitura de uma frase de CNT, nomeadamente, que os predicados monótonos decrescentes bloqueiem a interpretação de CNT e que sejam os predicados monótonos crescentes a assegurar a manutenção da leitura de CNT. Na base desta predição está Dowty (1994), que, partindo da Lógica da Monotonia (Valencia, 1991), calcula as propriedades de monotonia de um predicado e afirma que as expressões autonegativas, à semelhança dos IPN, como defendera Ladusaw (1979), só podem ocorrer em contextos de monotonia decrescente. Neste seguimento, Peres (1994, 2000) analisa, para o PE, a interferência dos valores de monotonia na determinação de interpretações de expressões autonegativas quando entre elas e o seu hipotético legitimador se interpõe um predicador de complementação frásica. O autor alega ainda a possibilidade de uma interpretação ambígua entre uma leitura de CNT (ninguém = alguém) e uma leitura de NP (ninguém = zero itens) em frases como Ele não decidiu que ninguém fosse interrogado. Para além da monotonia, Peres (2000: 191 e 195) refere que «algum papel acessório pode ser desempenhado por outras propriedades semânticas do verbo matriz, nomeadamente o valor epistémico (…) que tendem a bloquear o processo de (…) concordância. O autor acrescenta que o mesmo sucede quando a factividade está presente» (Peres, 2000: 186). Além destas propriedades, Giannakidou (1997) estabelece uma «correspondência entre a não veridicidade e a legitimação daquilo que (ela considera serem) sintagmas-N em grego» (Peres, 2000: 188). Por esta razão, Peres analisa a eventual relação entre veridicidade e legitimação da CNT em português. Considerando a escassez de estudos sobre a CNT, tendo os existentes uma abordagem baseada em juízos de introspeção (Peres 1994 e 2000), e ainda a inexistência de trabalhos sobre a aquisição desta estrutura, justifica-se um trabalho experimental com informantes adultos e adolescentes exclusivamente dedicado ao estudo da CNT. Neste seguimento, é intuito desta tese, em primeiro lugar, identificar como é que os falantes nativos de PE interpretam, de facto, as estruturas de CNT, de que modo variam essas interpretações e quais as causas na base da eventual variação (i). Um segundo propósito é contribuir para determinar até que ponto a CNT faz parte da gramática de jovens (adolescentes) falantes do PE (ii). Por último, é também objetivo deste trabalho comparar o desempenho entre diferentes faixas etárias, adultos e adolescentes, na compreensão das estruturas em questão (iii). Neste sentido, consideram-se duas hipóteses: a CNT ainda não está adquirida aos 12 anos de idade (Hipótese 1); a interpretação de CNT é favorecida por um predicado matriz monótono crescente não epistémico num contexto resultante de combinações sintáticas restritas: negação frásica na oração subordinante e oração completiva com uma expressão autonegativa em posição de sujeito (Hipótese 2). Para verificar estas hipóteses, concebeu-se um teste de aceitabilidade de 2 continuações para 30 frases, das quais 12 são frases completivas. Enquanto uma das continuações suporta a leitura de CNT, a outra permite a leitura de NP, sendo cada uma dessas interpretações o que neste trabalho se tomará como itens de teste, cuja aceitação é avaliada. O objetivo do teste é avaliar a interpretação da CN. Considerando cada uma das 30 frases, a tarefa consiste em aceitar ou recusar cada continuação da frase dada. Este teste foi aplicado a um total de 169 informantes, falantes do PE como língua materna: 85 adultos e 83 adolescentes – incluindo neste último grupo sujeitos de 12 anos, sujeitos de 13 anos e sujeitos de 14 anos. As frases cuja interpretação é testada de forma a determinar a existência de CNT correspondem a frases que contêm uma oração completiva, com negação oracional na oração subordinante e com uma expressão autonegativa em posição de sujeito pré-verbal na oração subordinada completiva. Para testar as propriedades do verbo, estabeleceram-se 3 condições, cada qual testada através de 2 verbos: a condição A – verbos monótonos crescentes epistémicos saber e compreender (ambos factivos e verídicos), a condição B – verbos monótonos crescentes não epistémicos conseguir e querer (um verídico e não factivo e outro não verídico e não factivo, respetivamente) e a condição C – verbos não monótonos epistémicos esquecer e dizer (ambos verídicos, um factivo e outro não factivo). Os resultados do estudo mostram que tanto adultos como adolescentes reconhecem a CNT no contexto sintático relevante. Os resultados parecem indicar que a CNT está já adquirida em todos os grupos, inclusive pelo grupo de 12 anos, infirmando a hipótese 1 deste trabalho. Além disso, conclui-se que as propriedades semânticas do predicado matriz são, de facto, relevantes para a determinação de uma leitura de CNT em português (espera-se que o sejam também em várias outras línguas), de acordo com a hipótese 2. A interpretação de CNT é favorecida sobretudo por contextos que incluam verbos matriz monótonos crescentes não epistémicos não factivos. Concretamente, a monotonia (crescente) é condição favorecedora para uma interpretação de CNT. Já a epistemicidade e a factividade bloqueiam de modo evidente esta leitura. Por sua vez, a ambiguidade entre uma leitura de CNT e uma leitura de NP foi pouco reconhecida por todos os informantes.
